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Entre a árvore iluminada e o porto às escuras

Entre a árvore iluminada e o porto às escuras

Prioridades públicas, turismo esquecido e escolhas que falam mais que discursos

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“O tempo não para”, já dizia Cazuza.

Em Barra do Garças, ele passou pelo rio, pelas pedras, pela história. Passou também pelo Porto do Baé,  mas a gestão pública parece ter ficado parada em algum ponto do caminho.

Quem conheceu o Porto do Baé nos seus dias de glória lembra: ali era ponto de encontro, lazer, cultura, música, comércio e trabalho. Um espaço vivo, onde famílias passeavam e muitos tiravam dali o sustento. Um verdadeiro cartão-postal da cidade.

Hoje, o cenário lembra aqueles capítulos de novela em que o personagem some e ninguém explica direito o motivo. O Porto do Baé virou silêncio. E, em política pública, silêncio quase nunca é acaso.

Alguns dizem que o abandono começou com aluguéis elevados, que afastaram comerciantes. Outros apontam a excessividade de blitz, que por muito tempo transformou o acesso ao local em um verdadeiro corredor de fiscalização.

E aqui a ironia se impõe sozinha: agora que os comércios se fecharam, que o fluxo diminuiu e que o espaço perdeu sua função social, as blitz naquela região também rarearam. Quase desapareceram. Tornaram-se discretas, quase imperceptíveis.

Fica a pergunta incômoda: o problema era o trânsito… ou o movimento?

Há ainda quem lembre do óbvio nunca resolvido, pavimentação adequada, manutenção e preservação do espaço público. Porque se o problema era o comércio, faltou diálogo. Se era infraestrutura, faltou obra. Se era preservação, faltou política pública.

No fim das contas, o Porto do Baé não foi abandonado por falta de beleza ou potencial.

Foi deixado de lado por falta de prioridade.

E não se pode dizer que Barra do Garças seja uma cidade pobre em turismo. Pelo contrário. Trata-se de uma cidade com rios, cachoeiras, trilhas, misticismo e uma força turística reconhecida. Isso é fato. Assim como é fato que existem recursos específicos destinados ao turismo e à cultura, vindos de editais estaduais e federais, convênios e programas próprios.

São recursos carimbados. Distintos. Que não competem com a saúde, não retiram verbas do SUS e não colocam pacientes contra projetos culturais. Orçamento público não é uma sacola única. Saúde é dever constitucional. Turismo é investimento econômico, social e urbano. Um não exclui o outro.

Antes que alguém tente deslocar o debate: sim, investir na saúde é crucial e obrigação de qualquer gestor. Isso não está em discussão. O que se discute é usar a saúde como argumento para justificar o abandono do turismo, quando os recursos são diferentes e as escolhas também.

Aliás, quando o assunto é árvore de Natal no meio da rua, o exagero e a exuberância sempre parecem valer a pena. Para o espetáculo passageiro, não faltam luzes, estruturas e inaugurações. Para o Porto do Baé,  que gera emprego, memória e identidade sobra o esquecimento.

Em Barra do Garças, o brilho parece ser sazonal: acende em dezembro, apaga o resto do ano.

É preciso dizer com todas as letras: o que acontece com o Porto do Baé é política pública. E, mais do que isso, é política pública municipal.

Embora recursos possam ter origem estadual ou federal, a gestão, manutenção, uso do espaço urbano, definição de aluguéis, fiscalização, pavimentação e preservação são responsabilidades diretas do município. O Estado pode apoiar. A União pode financiar. Mas quem executa, coordena e mantém é a prefeitura.

Decidir cuidar ou abandonar um espaço turístico é decisão estatal local.

Executar ou não recursos disponíveis é decisão política municipal.

Concentrar fiscalização em determinado território e torná-la quase invisível quando o movimento econômico desaparece também é política pública municipal.

Turismo, urbanismo, lazer e fiscalização são áreas clássicas da administração pública local. Quando não dialogam entre si, o resultado não é neutro: é esvaziamento econômico, perda de identidade urbana e abandono visível. A omissão do poder público não é ausência de política é uma política silenciosa, cujos efeitos ficam estampados na cidade.

Se o Porto do Baé fosse personagem de novela, estaria naquele arco em que todos sabem que foi deixado para trás, mas ninguém assume a responsabilidade. Uma espécie de Vale Tudo municipal, onde o cenário principal some enquanto o roteiro insiste em fingir normalidade.

Enquanto isso, Barra do Garças corre o risco de trocar sua identidade turística por outra bem menos charmosa: a da cidade onde o visitante encontra mais fiscalização do que acolhimento, mais bloqueio do que convite, mais advertência do que hospitalidade. A antiga cidade turística vai sendo substituída, pouco a pouco, pela “Barra dos Blitz”.

O Porto do Baé não precisava de discursos.

Precisava de cuidado.

Precisava de gestão.

Precisava de visão de cidade.

Porque quando um cartão-postal é abandonado, não é só o turismo que se perde. Perdem-se empregos, memória e identidade.

E isso, definitivamente, não é culpa do tempo.

É escolha.

Imagem da Galeria Imagem feita por IA
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