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A BR-158 e o milagre eleitoral: a estrada some, o deputado aparece
No Araguaia, o asfalto não chega, mas a indignação política surge pontualmente quando o calendário eleitoral manda
A BR-158, no Norte Araguaia, continua fazendo exatamente o que sempre fez: não avança. Poeira, lama, atoleiros e abandono seguem firmes, ano após ano. Já a indignação política, curiosamente, avança, mas só em períodos específicos. Coincidentemente, em mais um ciclo eleitoral, o deputado estadual Eugênio Paiva, que gosta de ser chamado de “deputado do Araguaia”, voltou a descobrir a existência da rodovia federal.
Em agenda recente na região, o parlamentar demonstrou surpresa com a falta de pavimentação, apontou uma placa próxima ao Bar do Luizinho prometendo obras para 2025 e lamentou que, em 2026, nada tenha saído do papel. A cena chama atenção não pelo conteúdo, mas pelo timing. Afinal, a placa não apareceu ontem, a promessa não é nova e o abandono da BR-158 não começou este ano. O que mudou foi apenas o calendário.
Segundo o deputado, dos cerca de 190 quilômetros ainda sem asfalto, apenas 43 quilômetros possuem licenciamento ambiental. Um dado técnico correto, mas politicamente reciclado. O licenciamento ambiental não virou obstáculo agora, nem surgiu por surpresa. Ele atravessa governos, discursos e mandatos inteiros, inclusive aqueles em que o silêncio falou mais alto do que a cobrança.
No Norte Araguaia, a população aprendeu há muito tempo que a BR-158 só vira pauta quando rende discurso. Fora disso, ela volta a ser apenas estrada ruim, problema velho e responsabilidade de ninguém. Não por acaso, moradores e carreiros resolveram chamar atenção do país com um gesto simbólico: o Desfile dos Carros de Boi, iniciado no dia 8 de fevereiro, percorrendo cerca de 140 quilômetros da rodovia. Um protesto que dispensa microfone e escancara, na prática, o atraso crônico da região.
O trajeto passa por Canabrava do Norte, Posto do Arnon, Posto da Mata e Bom Jesus do Araguaia, com chegada prevista em São Félix do Araguaia. O recado é simples e constrangedor: em pleno século XXI, o Araguaia ainda precisa recorrer a símbolos do século passado para ser notado. E, mesmo assim, só consegue atenção quando coincide com ano de campanha.
A crítica recente do deputado levanta uma pergunta incômoda, mas inevitável: onde estava essa indignação nos anos anteriores? Onde estavam as visitas, as cobranças públicas, a pressão constante? Porque estrada abandonada não se resolve com aparições esporádicas nem com discursos sazonais. Se resolvesse, a BR-158 já estaria asfaltada há décadas.
No Araguaia, a estrada continua a mesma. O barro, a poeira e o abandono não tiram férias. Já a indignação política, ao que tudo indica, segue calendário fixo: aparece em ano eleitoral e desaparece logo depois.
Da Redação - Ronda Araguaia Notícias
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